A LINHA ESCRITA EM PRIMEIRA PESSOA
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Nem uma fração de segundo pode ser gasta no retrovisor; a memória pode te perder. A dobra da esquina, a curva na noite. Um espelho se maneja somente à frente; perigoso quando para trás, a sombra dos aprendizados pode desnortear os sentidos, tragar para o abismo das justificações. Não há nada a justificar, há apenas esse instante de segundo agora para se fazer.
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Dos exercícios da escrita, talvez esse seja o mais perigoso: a primeira pessoa. Sou alguém que escreve. Preciso das palavras. Sou palavra. O leitor é alguém que lê; e confesso com tranquilidade: também sou uma leitora famigerada. Mas ambos, eu e você, somos equilibristas, corremos riscos. A linha é um desses cristais multifacetados, embora não indicado para feng shui, na mesma proporção que harmoniza, pode também ser desestruturante. Um mistério impossuível, uma aventura singular. Só dou uma dica: não me leve ao pé da letra, reescreva os sentidos.
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Desde que me embrenhei nesse caminho, lá na infância, com a morte de um professor de dança e a primeira poesia, não pude mais voltar. Escrevivo, minha forma de não seguir sobrevivendo. E quando debatem por aí que o escritor escreve contra a morte, repouso os olhos como quem concorda; embora saiba, a morte não no sentido literário, mas no literário dos sentidos.

