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para não poupar letras

eu, no seu lugar, me leria…

porque eu já me escrevo

e há em cada vírgula minha

uma tentativa de tocar você

- me ler seria:

escrever entre as minhas linhas

o suficiente de você

(o suficiente para desescrever o precipício que separam nossas linhas).

mas você está mais para corda

que eu fico com os olhos de dedos

tentando descobrir como é que toca…

me ensina?

 

*porque baldes são bons para transportar água,

mas vez ou outra convém chutá-los…

alforrias

cada ser no seu humano

- há sempre uma caixa coberta por poeira no alto do armário que guarda a libertação dos entendimentos dentro. Convém não ser alérgico a sujeira para vencer as superfícies…

Uma moça jardineira me confessara seu erro-acerto-segredo: décadas de caminhos circulares pela selva, com a placa a porta de sua caverna: sejam bem-vindos; e todo tipo de sombra de bicho que se aninhava acreditava passarinho.

Quem ataca o faz porque no fundo se sabe fraco; os atacados são os que em sua verdade não mascaram suas vulnerabilidades; mas não há guerra, não há vilões nem mocinhos, há apenas as escolhas das próprias possibilidades. Não faz sentido projetar campos de batalha, quem tem beleza na alma respeita a beleza do todo fora… o único real inimigo habita o emocional reino de dentro: e esse sim, opulento em suas vaidades, inventa pseudo-verdades de duelos.

- projeto flores, me alcançam, por fim, as borboletas.

- um instantinho…

Soltos os fios de beiras, esquecidas as bóias de braço na borda:

um salto vital, mergulho ao mar do ar

p r ó p r i o.

Desci tobogan da ponta esquerda do sorriso à ponta direita de mim

e um sol brotado na barriga rechaçou os pés de triciclo,

alada a alegria deu banda no goleiro do meu coração.

Deixados os freios pelo caminho

cada dia é um pirulito de papel colorido que se experimenta,

e tanto mais se experimenta mais de invencionices de alegria se apimenta.

Que café com leite o quê?! Autos das rugas da cidade dos medos,

minha terra meu play.

Tanto mais me reinvento, big ban.

- criança não pára jamais de crescer, não tem jeito…

algebra da vida:

criança grande = pinto no lixo

;)

Liberdade

coracaoarvorecrisebecken

Chorou até os olhos arderem de si mesma.

e

   s

      c

         o

            r

               r

                  e

                    u

                             r e t i n a    a                                             f   o   r   a

a mentira que por anos a cobria:

desamores permitidos. Óculos.

Quando foi mesmo que fez de um padrão sua moda?

D-e-s-q-u-e-r-i-a.  Escolha d i s s o l v i d a, curada miopia.

No ferver da própria água o peito livre:

v       a       p       o       r       e       s   -

o       n   o   v   o       e   m   e   r   g   i   a       :

no espelho era muito maior e simples o que acontecia.

Tempo Tempos Temos – Cris Ebecken

(*Oração ao Tempo – Caetano Veloso)

E cheguei ali, ou aqui, não importa onde, sem maquiagem nos olhos ou qualquer coisa nas mãos. A intenção era olhar nos olhos, e sentir fechando os olhos. Dança silenciosa que só comporta nos que vão com alma…

“Tambor de todos os rítmos” *

“No som do meu estribilho” *

O peito livre das velhas fantasias, o pensamento alheio às armadilhas, de forma que o mundo não compreenderia, mas o universo consentia. A beleza reina aquém e além dos olhos: bordado de sentimentos. Não há o que naufragar na vida, todos os náufragos são barcos fantasmas de escolhas mal feitas ou acovardadas. E o tempo incide seus raios na água tateando e abrindo. O som do fundo do mar é a mansidão em maré inundando no peito.

Um outro barco se aproxima, uma distância entre céus e mares tangível existindo-inexistindo…

“És um senhor tão bonito” *

“Compositor de destinos” *

Quem vem do lado de lá? O que quer quem vai do lado de cá?

Semelhanças e diferenças… todo barco tem sua história de águas, mas não as retém, não as é. Encontro: olhos de luneta. Não há sinais de pirata ou terra: há sinal de fumaça, acenar. Impossível saber ou nortear a recepção do lado de lá.

“Nas rimas do meu estilo” *

“Por seres tão inventivo” *

“Vou te fazer um pedido” *

Saber escutar o vento. Saber soletrar o próprio nome. Saber se fazer porto em alto mar, não temer a tempestade que carrega o outro. Deixar ser visto sem esconder a fragilidade. Reconhecer as imperfeições do lado de lá.

“Quando o tempo for propício” *

“Peço-te o prazer legítimo

e o movimento preciso” *

No alto da vista ergui uma bandeira rosa, mais sincera que tapete vermelho (que não teria). E sem espera ou expectativa deixei o peito cheio de mar entregue ao rítmo do sol…

“Fica guardado em sigilo” *

“Ainda assim acredito” *

“Num outro nível de vínculo” *

Barcos e seus tempos, embarcações e seus destinos escolhidos. Não há o que prever. Há apenas como se guiar pela intenção de um sentimento. Intuições bonitas…

“Tempo tempo tempo tempo” *

Tempo tempos temos.

Baguncinhas de vestígios de par restavam como que penduradas no sem sentido. Nunca se sabe o quanto duram ou para onde rolam os novelos de lã desbotados, como se o coração fosse uma criança desajeitada aprendendo a enrolar e a cortar a linha. Mas naquela tarde um sabor escorria diferente em seus movimentos e pedaços, como quem não mais recolhe cacos e limpa, mas acha o inquebrável e seu espaço.

Mudando fotografias e guardados, cantarolando som sem dor, em um desajeito harmônico o pulso esbarrou na xícara de café. A tinta preta deitou mesa, rolou, e espalhando alcançou a última fotografia, a fotografia retirada das que não ficariam, o par dos inícios dos desamores. Dessabores apagados no café. Ficou parada assistindo a invasão e a dissolução. Sem vestígios de estremecimentos, olhava e entendia o bom de não mais poder guardar aquilo que há instantes atrás não sabia onde colocaria.

Entre a inteireza de suas paredes, pinçou com os dedos a imagem escurecida alagada e a soltou embora com delicadeza. Olhou o espaço que restara, e por uma fração de segundos teve a impressão de que se abria como janela. O aroma de café seguiu crescendo nos sentidos: amanhecia os novos sabores. Estava livre de si em sua casa raiada.

- é precipício ou fantasia?

Distorciam a legenda os ecos dos medos.

- não é abismo, é só profundidade…

Era o que os olhos liam no espelho mútuo.

- mergulho sim.

Todo coração no fundo sabe ao que se destina.

(e um mar alagou o corpo inteiro)

- toda felicidade tem reino dentro, e próprio.

(quando o confessional puxa a bainha da saia)

Um universo inteiro dentro do peito e uma dissolução no universo inteiro: se eu for dizer que sou alguma coisa, talvez uma gotinha de cor, uma micrúscula partícula de cor com a giganteza dentro do peito. E talvez por intuir esse meu percurso, há tempos me desaproprio do tom em primeira pessoa, da prosa do eu. Mas, convenhamos, a vida sempre dá presentes que liberam dos extremismos: no momento de entender o que é um mar inteiro, não mais um mero afluente, veio de brinde a dimensão de só poder falar de dentro desse meu eu-gotinha.

Então, aprendiz teimosa, mas boa, que a vida me fez, inventei de conseguir pescar as letrinhas em linhas contínuas para falar de sentimento, cá de minha única (não primeira) pessoa…

(Um joelho esfolado e inflamado me fez mais humana, mas ardido nenhum nele me abafa a largo band-aid a sensação de coração macio, pelo contrário, combinam… e combinam em um ser que não rima amor e dor, porque não há o que se preencher com dor, quando se descobre o que é amor no oposto das inflamações dos quereres. )

Não há nada que os olhos possam confiar mais do que o sentimento, aprendi… olhos se entregam na verdade dos encontros, contam entre pares no canal do sentir, mas mentem, enganam adulteradamente, quando inventam ver o que e como gostariam. Então, para enxergar é preciso ver com o coração.

As mentiras mais tolas talvez sejam mesmo as de amor, de tudo que se cria para alguém ter que caber… quando amor, na verdade, é simplesmente um sentimento que é, acontecido e rei do universo de dentro, incontrolável, entregue por ser, sem tempo pré-determinado e sem expectativa. Ninguém casa com o amor, amor tem mais que dez dedos para em um colocar aliança, amor não tem corpo, toca no corpo inteiro.

Amor é fluxo como água, e água é algo pra lá de maleável, mas forte que só ela. Amor é mansidão,  transborda no peito e derrama a volta.  Sou pequena feito formiga ao lado do amor, mas posso ser grande nele se escolho ser gota na correnteza, e escolhendo ser gota ele transbordou em mim mesma, e eu me vi correnteza. Correnteza não é margem, não se baseia em métrica, não traça linha reta-cega… outro dia ouvi de um ser sábio que ansiedade cega, verdade. Amor não tem fome, correnteza é encontro.

( Com o joelho sendo cuidado e sem querer band-aids para o coração, ganhei outro brinde… senti com o entendimento do coração o que é uma pessoa que tem uma lagoa e uma cachoeira dentro, até confesso o desejo que me bateu de fazer carinho, mas como correnteza transbordei, e estou até agora entregue como mar ao fluxo dos encontros no tempo)

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