Quando o caminho vai se tornando mais claro, diluem-se as certezas, tudo é: escolha, possibilidades.
Gratidão não acende velas, se estende a luz que vem dela.
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Um dia o homem inventou a porta. Aprendeu e ensinou a colocar dentro dela o que lhe importa. Porta pequena. Porta suntuosa. Porta larga, grossa, pesada, com tranca, engradeada, porta. Porta, ainda que moderna, atual, medieval. Nosso princípio dos nãos, nossos avisos limítrofes.
Não sei nada da verdadeira história das portas, e esse texto a esse respeito nada documenta ou se reporta. Mas sei que não aparecem plantadas, ao natural, não existe pé de porta, plantação de porta, e ainda assim vivemos todos bem assim.
Nossas pecáveis portas, muito provavelmente inspiradas nessa necessidade, estranha, de marcarmos espaços, nossas placas tão mal sinalizadas de respeito. Porque somos assim, humanos, e precisamos da lembrança: calma lá, aqui é meu território!, para não nos invadirmos. Comum aquela placa nas casas: Deus abençoe esta bagunça., melhor seria: Deus abençoe nossas portas enquanto ventamos.
Mas a porta, ao avesso, vista do outro lado, anuncia o que a todo tempo deixamos de ver, os sins. A lua cheia, redonda, plena com sua noite clara, está lá, do outro lado da porta. O cheiro de calma que levanta, a estrela cadente mesmo em céu urbano, a troca, a troca!, está lá do outro lado da porta. Inclusive os nãos, os nãos de se ouvir, os nãos de se dar, estão lá, do outro lado da porta dos sins.
Resta, como sempre, antes mesmo de inventarem as portas, abrir A porta.
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Por anos a fio, Clarice!, carreguei aquele seu texto debaixo do braço, e achava, ah, por que achava?, que aquela sua solidão desde o berço, aquele querer pertencer sem conseguir ser, me unia na falta, me amparava, como sua solidão amparava você. Quantas mentiras a gente inventa, Clarice!, para justificar se obscurecer. Quanto castelo de areia, obra enfileirada fazendo muralha, a gente pinta à frente, estampa capa. Prefiro rasgar os erros dos nossos pais, tão humanos, como eu e você, como quem rasga as páginas de um livro encarquilhado de passado. Prefiro espanar fora a poeira do medo que nos afasta por nossas dificuldades, para ter meu nome escrito, não na biblioteca das chagas, mas no compêndio da vida, na arte sagrada do milagre de poder renascer todo dia. Eu hoje sinceramente acredito no amor, Clarice!, em sua forma simples e grandiosa… e sei, enquanto se espera nada se sabe dele, e ele não virá como remédio enquanto se é selvagem. Felicidade nenhuma é clandestina, o lustre a maçã não ilumina, um sopro não é corpo inteiro, não há pecado em ser, Clarice, se todo esse dom de nos iludir nos ensina a cada ponto e vírgula a nos corresponder com nossa estrela. Vou te desparalizar das minhas prateleiras, te devolver à circulação no mundo, e isso me une a você. Obrigada por tudo, Clarice…, mas agora sou eu com minhas linhas, meu começo. Não quero entrar para a história, quero fazer a história de quem foi capaz de abrir a porta e receber.

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Não se precisa ser suficiente quando se é em si.
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